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A Espiritualidade Druidíca
“A prática e a filosofia
druídicas estão solidamente embasadas
no respeito pela sacralidade deste planeta e de seus
habitantes. O druidismo é definitivamente uma
espiritualidade verde, promovendo o cuidado com o meio
ambiente através da responsabilidade pessoal,
da conscientização e do estabelecimento
de uma relação de espírito para
espírito.”
- Emma Restall Orr, líder da Druid Network
Seguramente a mais importante liderança
druídica da atualidade, Emma Restall Orr sintetiza
na frase acima o objetivo do druidismo enquanto espiritualidade:
conscientizar as pessoas da necessidade de se resgatar
o respeito por nosso planeta e por todas as suas criaturas.
Esse respeito só pode surgir do conhecimento
da terra, de seus ciclos e estações. Esse
conhecimento é uma das mais marcantes características
da espiritualidade druídica, e manifesta-se de
diversas formas: os druidas eram grandes conhecedores
das propriedades medicinais e associações
mágicas de árvores, plantas e animais.
Sua ligação com as árvores era
tamanha que eles não construíam templos,
preferindo celebrar seus rituais em meio às árvores
das florestas e bosques sagrados - chamados de nemeton
(literalmente, 'bosque sagrado'). A própria palavra
druida significa 'aquele que tem a sabedoria do carvalho'.
Mas qual é essa sabedoria?
É a capacidade de compreender que existe uma
época para tudo: nascer, crescer, florescer,
amadurecer, frutificar e morrer. Se observarmos uma
árvore durante as estações do ano,
perceberemos que ela respeita esses ciclos – ciclos
que determinam a existência de praticamente todas
as criaturas. Tudo no mundo obedece a essa ciclicidade:
o sol nasce no oriente, atinge seu zênite ao meio-dia,
começa sua descida rumo ao oeste onde se põe
e desaparece durante a noite, para renascer no dia seguinte.
A primavera traz o brotar de uma plantação
natural; o verão traz o amadurecimento, o outono
traz a colheita e o inverno marca o repouso da terra,
para que uma nova safra germine na primavera seguinte.
E a vida de todas as criaturas - inclusive a dos humanos
- enquadra-se nessa ciclicidade: a primavera corresponde
à nossa infância, o verão à
nossa juventude, o outono ao nosso amadurecimento e
o inverno à nossa morte - para que em seguida
possamos renascer, pois não há inverno
que não seja seguido da primavera, nem noite
que não traga um novo dia.
A espiritualidade dos druidas era tão profunda
que os próprios escritores gregos custavam a
entender como os celtas, a quem eles consideravam 'bárbaros',
possuíam crenças comparáveis às
dos seus grandes filósofos, como Pitágoras...
Para os celtas, o tempo se desenrolava não como
uma linha, mas como uma espiral, numa longa e interminável
sucessão de ciclos, os quais, quando compreendidos,
podiam ser altamente inspiradores. A compreensão
desses processos ocorre através da inspiração
que brota do contato estabelecido de espírito
para espírito - entre duas pessoas, entre uma
pessoa e uma árvore, um rio, uma montanha, a
Terra, uma deusa, um povo... A esse contato, a esse
fluir de inspiração, dá-se o nome
de Awen - palavra galesa que significa 'inspiração
que flui entre espíritos'. A Awen está
associada a diversas deidades celtas, entre estas a
grande deusa Brighid, patrona das artes, da mulher e
da poesia. A relação dos druidas com seus
deuses era tão íntima que cada tribo se
dizia descendente de uma deidade. Brighid, por exemplo,
era a deusa ancestral dos Brigantes, uma importante
tribo celta, que emprestou seu nome à moderna
cidade portuguesa de Bragança (antes chamada
de Brigantia). Como se vê, os deuses celtas não
são entidades distantes: são os próprios
ancestrais, fontes de inspiração e compreensão
do mundo em que se vive. Afinal, tudo o que somos hoje
devemos, queiramos ou não, aos nossos ancestrais.
E como os deuses celtas representam as forças
da natureza, então somos todos descendentes dos
rios, lagos, mares, florestas... se essa mentalidade
fosse compartilhada por mais pessoas, certamente hoje
o mundo não estaria tão devastado, tão
poluído, tão maltratado... certamente
viveríamos em harmonia com nosso meio ambiente,
pois seríamos incapazes de sujar as águas
de um rio - o corpo de um deus.
Fica claro, então, que o druidismo não
é uma espiritualidade ultrapassada: pelo contrário:
ele busca no passado a inspiração para
agirmos no presente visando a criação
de um futuro melhor – para a humanidade e para
todo o planeta.
Claudio Crow Quintino
www.claudiocrow.com.br
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